quinta-feira, 19 de março de 2009

Flocos de Neve

Só mais uma foto, vah lah!
Dizia-me ela, com o olhar desafiador. Soltei os meus cabelos castanhos, abri os braços, e lá estava ela, como que absorvida, fazendo os seus “clicks”, e ela não falava, rodava á minha volta, absorvida, mandava-me olhares indiscretos, parava e contemplava-me, pedia mais uma foto,e eu... eu sentia-me seduzida.
Sentia-me pouco a vontade, as minhas inseguranças em relação ás minhas ancas, os meus joelhos, a minha barriguinha começaram a vir ao de cima. E ela... ela brincava e dizia-me “ vah lah sobe mais a saia” e “ desce mais as alças dessa tua t-shirt”, e eu fazia-o, e vagueava ali naquele campo verde ao pôr do sol, descalça e com alguma fome.
Ela elogiava-me, eu compreendia que era apenas para me deixar mais à vontade, mas então ela aproximou-se, desviou-me os cabelos do ombros, virou-me a cara de modo a que ficasse de perfil.Esperando que ela começasse nos seus “clicks”, comecei a focar-me na árvore que se encontrava á minha frente, estava cheia de botões brancos de flores, que num bom sinal de primavera começavam a abrir, e com a leve brisa dum fim de tarde primaveril, faziam aquelas pétalas brancas voar, se não tivesse o pôr do sol no horizonte, diria que estava a nevar. E então senti, senti um suave calor, como quando estas em frente á lareira numa noite fria de inverno, senti-o profundamente, invadir-me, fechei os olhos, e o sentimento ampliou-se deixando-me atordoada, senti as suas mãos macias, percorrerem os meus ombros subindo até ao meu pescoço onde ela o beijava carinhosamente com os seus labios suaves e fofos, estava de olhos fechados mas via, via claramente, via os seu cabelos loiros compridos misturados com os meus, vi-a a sua pele branca e quente encostar-se á minha, ouvia o som do seu repirar bem junto ao meu ouvido. Todo o meu corpo estava impossibilitado de se mexer enquanto ela movia as sua mãos macias pelo meu corpo, e então chegaram á minha face, gentilmente virou-me a cara para ela, estavamos tão perto, reparei nas suas longas pestanas, na sua pele rosada, nos seus grandes olhos cor de avelã e os seus lábios quase vermelhos... e sim senti-os encostarem-se nos meus, tão suaves, tão quentes, tão delicados, naquele momento tudo o que eu sabia sobre qualquer coisa desapareceu, apenas via aquelas pétalas brancas, que mais pareciam flocos de neve cairem lentamente, numa tarde que mais parecia de verão.
Sem saber como, movi-me, ela assustou-se e largou-me, olhei para ela e o seu olhar tinha mudado, o mesmo olhar que me tinha beijado tinha saído do seu transe e nunca mais o voltei a ver. Ela pediu desculpa, apanhou a sua máquina fotográfica que tinha caído no meio da erva, viu que estava inteira, olhou para mim e fez mais um “click”, e disse que estava na hora, de irmos embora para jantar. Não tinha palavras, dentro de mim apesar de estar um túmulto de emoções, morava o silêncio cá para fora que duma certa forma, me deixou confortável para o resto da noite. Depois disso nunca mais a vi.
As fotos chegaram alguns dias depois pelo correio, eu nem me reconheci, pareciam fotos de revistas de moda, eu com todos os meus defeitos ali estava, nesse momento apaixonei-me por mim.
Ahhh...querida Rafaela... que fizeste tu de mim?

Musica do Dia: "Love will tear us apart" - Joy Division

1 comentário:

Anónimo disse...

P.P.?
É muito semelhante.
rsrs

Amei o texto, como sempre.

;)