sexta-feira, 10 de setembro de 2010

"Tu não existes, tu não és normal"

Esta semana trocaram-me o monitor do meu PC e eu decidi chamar-lhe Marvin. Porquê? Bem... Lembram-se do Marvin? Ele era aquela personagem fofinha dos Looney Tunes, que queria sempre explodir a terra com um lazer porque lhe tapava a visão para Vénus Bem eu achei que como o novo monitor tem um pouco mais de brilho que o antigo, é bastante óbvio que ele me estava a atacar o cérebro.. logo... é o Marvin.
Quando expliquei esta minha teoria entre os meus colegas, fiquei oficialmente conhecida como “Joana tu não existes, tu não és normal”, desta forma acho que me posso auto proclamar de mulher invisível, ou algo parecido...
Mas a verdade é, eu costumava partilhar estes meus devaneios com o meu ex-namorado e ele achava-me perfeitamente normal, só ele me ouvia a fazer teorias deste tipo em que o fundamento era algo terrivelmente estúpido. Agora que acabamos há um ano, e eu não tenho com quem partilhar estes momentos, dou por mim a partilha-los com toda a gente. Desta forma agora tenho 3 grupos bem definidos na minha vida, o pessoal que me acha completamente anormal, os amigos mais chegados e que simplesmente dizem que “és um bocado estranha” ou “és uma geek” e a minha família que me tem que aturar porque simplesmente têm o mesmo sangue que eu.
Às vezes, mas muito raramente (acho que só tentei 1 vez), tento partilhar com o meu amor, mas ele tem uma vida mais social que a minha e não me dá muita conversa, mas até me ouve... porque de vez em quando lembra-se de gozar comigo.
Mas resumindo, tenho-me dedicado a ser mais eu própria para as pessoas. Como já referi anteriormente, as pessoas não são o meu forte (Ou pelo menos é o que eu penso). Tenho reparado que algumas ficaram mais próximas, estas, penso eu para mim, são as que eu tenho que preservar. As outras há que simplesmente aceitar que os amigos vão e vêm, e continuar caminho, por mais que nos custe às vezes.

Música do Dia: " Six Queens" - Larrikin Love

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Elogio ao amor

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.



O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.



Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.



Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?



O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.



O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.



O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso - Expresso

Gostei muito, então partilho com vocês.
Aqui está tudo que eu não sei dizer =)

beijos