quinta-feira, 14 de maio de 2009

Flocos de Neve: Parte 3

Combinámos encontrarmo-nos no café na tarde seguinte. Eu cheguei cedo, estava nervosa, tinha passado pelo menos 3 horas em frente ao espelho a experimentar todos os vestidos que tinha. No fim já estava quase em cima da hora e eu ainda não me tinha decidido. Acabei por vestir o vestido mais simples que tinha, não coloquei maquilhagem, apanhei o meu cabelo apressadamente apenas com um lápis, calcei uns chinelos e lá saí de casa.
Cheguei ao café dez minutos antes do combinado, sentei-me e pedi uma água. O que eu queria mesmo era pedir um gelado, mas guardei-me para pedi-lo quando chegasses.
Comecei a pensar nos nossos tempos de infância, as tardes perdidas no campo a jogar ás escondidas, as vezes que me deixavas pular para as tuas costas e atravessavas comigo o rio onde nunca deixavas eu molhar os pés. As correrias pelo campo atrás das ovelhas, as caçadas aos grilos na primavera, tu eras o meu companheiro de infância, nunca estávamos sós, tinhamo-nos sempre um ao outro.
Quando dei por mim já tinha passado uma hora que estava no café. Ainda estava ali sozinha, com a minha garrafa de água á frente. Ao meu lado uma senhora já duma certa idade reclamava da muita manteiga na torrada e á porta do café estava um cão amarrado que ladrava. Olhei novamente para o relógio, comecei a pensar que já não virias, que toda a minha alegria das recordações tinha sido inútil, e que o facto de eu estar ali era afinal para ti uma brincadeira. O empregado aproxima-se, pergunta-me se vou querer mais alguma coisa, por esta altura estou incrivelmente irritada e respondo-lhe rispidamente que não, não vou querer mais coisa alguma. Ele sorri, um pouco espantado, e então pergunta“Por acaso não se chama Leonor?”estranhamente respondi que sim, ele dirigiu-se ao balcão, pegou num envelope branco e veio entregar-mo.
Ao abrir vi que era teu, pois começava com “desculpa não estar aí”. Levantei-me, paguei a minha água e saí. Corri para casa deitei-me na minha cama e então abri de novo o envelope e li.

1 comentário:

|uJ| disse...

Gosto da tua sensibilidade lida. Lida de menina a crescer. Cresces quando escreves assim. Isso, mesmo que pouco. Pouco que é muito. Muito pouco conheço-te. E sem mais nem menos. Menos e mais leio. Gosto.

Ofereço-te, porque com tanta insistência minha, um dia vais ler.

"as tuas mãos, ou a tua pele, ou os teus lábios.
O teu olhar.
O teu olhar lembra-me sempre que ou os teus cabelos, ou a maneira exacta como o teu rosto.
O teu rosto.
Ou o teu corpo que adormece onde o vento não se esqueceu de ou cada uma das tuas palavras,
palavras, palavras numa língua de céus impossíveis."
[José Luís Peixoto]

rsrs.. Beijo