Há uns anos atrás, eu costumava adormecer com a minha webcam ligada. A minha luz da mesinha de cabeceira também assim ficava toda a noite. Ele dizia que gostava de me ver dormir, e eu não me importava de lhe mostrar. Tinhamos os dois um talento para a fotografia, talento que agora guardamos e apenas nos dedicamos a ele muitas poucas vezes. Era a única coisa que nos unia, a fotografia. Ele trazia o coração partido, misturado com uma depressão e uma bulímia nervosa. Eu mantinha o meu partido, mas sem grandes exageros.
Levei-lhe chocolates na primeira e única vez que o fui visitar a Aveiro. Chocolates era a única coisa que ele comía. De preferência de leite. E passamos um dia inteiro a tirar fotografias. Foram as melhores fotografias que tiramos até hoje. Foram as únicas fotografias para as quais ele sorriu na altura. Nesse dia tive um ataque de asma. Os ares do campo não me fazem nada bem na primavera. Mas nada disso importou pois nesse dia eu senti que mudei o mundo. Fiz uns quilometros para ver uma pessoa que estava a cair, sorrir.
Estava de volta a lisboa nesse mesmo dia. Há uns anos atrás eu só tinha folga uma vez por semana, então não dava para ficar mais. E ele... ficou da mesma maneira em que o encontrei. E eu apenas o queria ver melhor, nunca o quis salvar pois nem a mim me sei salvar.
Nunca mais nos vimos pessoalmente, a minha webcam nunca mais ficou ligada, nem a minha luz da mesinha de cabeceira. E ele... ele agora está melhor.
Ás vezes lembro-me dele, pois ainda tenho as fotos. E a fotografia era aquilo que nos unia.
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